Estávamos lá. 1.500, 1.600m  de altitude MSL e havíamos decolado do Morro de Santo Antônio, vôo maldito, proibido, politicamente incorreto e antiecológico, de acordo com alguns.
Comigo voava Luis Fernando, piloto das antigas mandando bem em seu Sinergy 1.
Tomamos a decisão de pousar, apesar de sobrar combustível e, o mais importante, o dia apresentar intensa atividade térmica. O gradiente estava “até doce” como diria “Seo Juca”. Maldita decisão. Poderia ter faturado bons káemes naquele dia.
Havia atravessado o lamacento Cuiabá e voltava para a margem esquerda, com dificuldades para perder altura, verdadeira heresia, inda mais na baixada cuiabana, local de reconhecido gradiente desfavorável ao vôo livre. “Enganovers”, espirais leves e, obviamente, voar fora de térmicas, me permitiram descer para o pouso. Mirei o alvo: o campo de futebol da idílica Santo Antônio.
À esquerda, a torre de celular da operadora local e o campo verdinho, verdadeiro tapete, convidava-me a por os pés suavemente em cima dele após estolar a vela, virar de frente para o brinquedinho e fazê-lo abraçar suavemente a grama fresca.. Mais “enganovers” e curvas com o objetivo traçado. Mantinha a proa para o pouso. Algumas chacoalhadas, fruto da atividade termal, mas nada excepcional, que pudesse indicar o que viria a seguir.
E o que veio a seguir meninos e meninas, pegou-me completamente desprevenido: o telhado de tecido que protegia-me de todas as intempéries da natureza desabou. Do meio da vela para as pontas. Não chegou a ser um front animal. Levei bem maiores depois. Mas desestabilizou todo o conjunto pendular de minha aeronave e como resultado padrão de todo front, a seqüência de eventos redundou num pêndulo de dimensões consideráveis que contive com a atuação correta dos batoques, manobra para que aprendi no curso de simulação de incidentes de vôo, SIV. Bendito SIV: não fosse ele já teria me metido em grandes enrascadas. E bota grandes nisto.
Bem, além da vela, o evento também desmontou a estabilidade de minhas pernas, tornando-as bambas. Daí, o sonho de toda uma existência ruiu: não pousarei mais naquele campo de grama verde, com toda aquela petizada me cercando, os locais maravilhados com aquela geringonça que voa igual pipa no vento, pois, decididamente o campinho não era exatamente um maracanã. Teria que encaixar muito bem meu pouso dentro do campo. Algum erro e... cerca!
Dei meia volta. Olhei nos arredores e lá estava o terreno baldio buscado por todo voador que ao sair do morro consegue chegar na cidade.
Fiz a perna para o pouso, fazendo o cálculo para voar baixo lambendo algumas árvores típicas de nosso cerrado para, daí, pousar os pés naquele terreno. Praticamente no final da perna para pouso, num dos lados da rua estava a rede de 13.8kv, de alta tensão, comum nas nossas cidades. Tão comum que convive com a rede de 440v, de baixa tensão. Não queiramos ter um encontro com ela. É o que poder-se-ia chamar de tórrida relação .
Enquanto percorria a trajetória da perna para alinhar-me com o pouso, verifiquei que o dia estava particularmente saboroso, brotando térmicas a baixa altura chacoalhando minha pequena e frágil aeronave. Maldita hora que tomei a decisão de pousar, mas, enfim, a decisão estava posta.
Muitos que ainda não perceberam ainda irão aprender que, em vôo, recebemos muitos avisos do que está para acontecer. Acho que é assim na vida onde somente os incautos são pegos desprevenidos.
Felizmente estava atento a estes avisos e inferi que ao chegar na rede de alta que estava no final da perna de aproximação de meu pouso, poderia receber uma “lufada” de vento que poderia me jogar em cima dos três fios da alta (um neutro e duas fases, creio eu).
Cônscio desta possibilidade, tomei a decisão de não ultrapassar demais os fios para colocar a proa para o terreno baldio.
Dito e feito!
Exatamente como previa, uma bolha de térmica forçou minha trajetória sabem para onde? Bem prá cima daqueles demoníacos fios de alta tensão. Virar churrasquinho eu? Nem a pau juvenal!
Como não havia passado dos limites, ou seja, não voava sobre os fios, ainda tinha tempo para agir. Não porém, sem algum trauma. Mas precisava agir!
E agi da forma que reputo a única para a ocasião. Os fios estavam à minha direita, deveria ir para a esquerda. Então lá vai: uma atuação A-N-I-M-A-L no batoque esquerdo, negativando a vela. Estava mais ou menos na altura dos fios, porém, a negativa não redundou em queda livre. Desci forte, porém, não despenquei, caindo dentro de uma espécie de vala. Bem a minha frente um barranco no qual bati os dois pés com a vela caindo depois de mim, bem diferente do pouso almejado, ensaiado, teatralizado até, que imaginei naquele campinho sob os holofotes de Santo Antonio do Leverger.
Mas estava completamente a salvo da ameaça hertiziana da rede de alta tensão.
Por que estava a salvo? A resposta a esta questão é definitivamente a diferença entre a vida e a morte no vôo livre.
A eficiente instrução que recebi de nosso instrutor Fernandes e do suave SIVUCA, bem assim como a atenção que sempre dediquei ao contexto em todos os meus vôos, desenvolveram em mim uma boa capacidade de observação dos sinais que a natureza nos dá, permitindo-me antecipar os eventos.
Ao verificar a forte atividade térmica daquele dia, percebi (antecipei) a possibilidade de uma bolha me levar de forma irreversível para cima daqueles fios. Existindo esta possibilidade, não os cruzei completamente. Porém, minha capacidade de observação poderia ter aumentado ainda mais minha margem de segurança, fazendo-me retroceder mais longe ainda da rede. Como não o fiz, o resultado foi a negativa que me deixou longe do pouso, mas também longe do desastre.
Impressionante o vôo livre. Evidentemente quanto mais voamos, mais aprendemos. Esta aprendizagem, porém, parece que se transforma numa espécie de vidência onde cada evento permite o desdobramento do próximo em nossa mente: um chacoalhão na vela e não sei porque, sabemos que temos que girar para um ou outro sentido, centrando a térmica e ganhando altura; uma despressurizada aqui ou acolá e instintivamente sabemos qual batoque e com que força atuar para mantê-la aberta; intensa atividade térmica no dia e sabemos que provavelmente no pouso descolarão bolhas que nos dão um bom trabalho para chegar ao chão em segurança; fumaça muito inclinada no solo e sabemos que o vento está forte e que atrás dos obstáculos encontraremos rotores. Está tudo ao alcance do piloto, visível e invisível ao mesmo tempo.
Assim, esta vidência é, ao mesmo tempo, a sobrevivência do piloto e do seu vôo.
Sejamos então, pilotos videntes e não nos deixemos ser pegos de calças curtas pelas milhões de possibilidades que o vôo livre pode nos apresentar.
(Acho que esta é uma história de ficção e quaisquer coincidências com nomes, pessoas, eventos e lugares é mera semelhança. Pelo menos acho |