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Relato de vôo
Por Ângela Fontana   
21 de fevereiro de 2008

Dez da manhã e estávamos no pé do morro.Queria um termômetro pra saber a temperatura, nunca senti o sol arder tanto. Uma camada generosa de filtro solar em todo pedaço do corpo exposto, boné na cabeça, camelback nas costas, muito ânimo e hora de encarar a subida.
De todas as vezes que subi o morro essa foi a mais penosa. Subir no fim da tarde pra ver o pôr-do-sol é mais fácil, agora, com sol a pino é mesmo de matar. As pedras parecem maiores e mais altas, cansa em dobro e a subida fica mais ‘ingridi’,como diria nosso amigo Aldemar. O morro tem só 210 metros de altura, debaixo desse sol e com essas pedras parecem 400.
Já estava quase perdendo as pernas quando fizemos nossa parada merecida. Sentamos numa sombra onde a vista já recompensa. Enquanto todas as minhas sensações - cansaço, sede, náusea e fome - me sacudiam de uma só vez, os guris se divertiam observando alguns voadores que dominam o céu por aquelas bandas:
_ Tá vendo aqueles caras ali?
_ Os da esquerda ou da direita?
_ Os que estão na base daquela nuvem ali. Olha só que enroscada!
_ É... tão subindo tudo que dá...

Fiquei procurando 'os caras' até cansar o pescoço, sentindo minha nuca esturricada (putz! esqueci desse pedaço). Bem, olhei, olhei e não achei nada, só uns passarinhos lá em cima.
Ok. Tomo água, fôlego, e o Arthur me puxa:
_ Bora amor, agora tem menos da metade.

Os passos estão lentos e fico pensando: Que animação! Como a galera aqui gosta de diversificar, sempre buscando o melhor vento ou um vôo diferente não importando onde. Tudo pelo prazer e pela técnica. Nada de preguiça.

Topo do morro finalmente, tudo parado e - como diria nosso amigo Aldemar - ‘jarrada’ de vento que é bom, nada! Putz de novo! Escalar e morrer no morro?
NÃO! Não para o super-super Fernandes Falcon, o urubu mais cheio de ciência dessas paragens! Tan dannnnnnnn...
Aqui não, hein! Esse tira vento de pedra. E foi o que se deu. Asa aberta, equipamento em ordem, todo mundo conectado e...
_ Agora vai, agora vai... Ai meu Deus! Cadê esse vento? ... agora vai, agora vai... Pô!tá feio hein? ... É agora, é agora! Arthur, gruda aí. Vocês dois, dá pra fazer um varal?
_ Olha aqueles caras ali enroscando numa térmica. Acho que a bufa dela passa aqui.

De novo os tais 'caras'. Olho pra todo lado e nada. Dou três piscadas pra desembaçar e só mesmo passarinho lá em cima.
Tá chegando a hora.
_Seguinte Ângela: quando eu falar ‘vai’, começa a correr e não pára.
_Ok!

Eu estava tranqüila. Não sei por que, não sinto medo nenhum, confio no piloto e ao primeiro comando me atiro montanha abaixo. E foi assim mesmo.
_Corre, corre, corre, corre...
Pernas pra que te quero, saí correndo e fazendo força pra ajudar a arrastar a asa o que dava e inflar. Uhuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!
Quando me dei conta já estávamos voando e eu ainda pedalando no ar. Ops!


Que sensação! Vento na cara, ar de sobra pros pulmões, paisagem até onde os olhos alcançam, o mundo lá embaixo. Já sei como os pássaros se sentem. O vôo livre é mágico. Ficava olhando tudo aquilo, o céu ‘quase’ ao alcance, a paisagem toda cabendo no angulo da minha mão e já pensando na próxima vez que poderia fazer isso de novo. Lugar perfeito pra uma poesia, nem precisa de palavras. Abro a boca o quanto dá e engulo uma porção de vento, quero digeri-lo pro resto da vida. Olhei o pessoal que tinha ficado no morro, vejo o Arthur decolando e... ih! Acho que vai pregar. Pregou! (hehe)
Conseguimos uma térmica. A ordem era jogar todo o peso do corpo pra direita e assim conseguir enroscar, girar e subir. Subimos 1.167 pra cima da rampa, se o vento colaborasse chegaríamos mais alto. Mas chegamos aqui por pura peripécia do piloto mesmo, porque o dia não estava fácil. Fizemos metade do caminho pra cidade de Santo Antonio de Leverger. Lá em baixo muitas chácaras e piscinas. Tchauzinho pra galera do solo. Começamos a perder altura, o Fernandes escolheu um bom lugar pro pouso e pronto. Pé no chão de novo e nem dava pra acreditar que o meu solo, a uns segundos atrás, era feito de brisa. Pousamos no pasto de uma fazenda e o nosso resgate chegou junto. Por último, uma chuva de recompensa. De co-piloto pra piloto Valeu, hein! Parabéns!


Foram 44 minutos em outra dimensão. Impossível passar por uma experiência como essa e não olhar para a vida de outra maneira. Queria que todos os meus amigos pudessem ter pelo menos um dia de pássaro nessa existência.
Sentir-se livre no céu, de peito aberto pro espaço é uma sensação insubstituível.

Ah! Sobre os tais ‘caras’? É que urubu aqui é gente. E se chamar um piloto de ‘urubuzão’... Nossa! mó elogio.



Ângela Fontana

Última Atualização ( 21 de fevereiro de 2008 )
Antecipando eventos e... salvando a pele.
Por Ivo Borges   
12 de fevereiro de 2008
Estávamos lá. 1.500, 1.600m de altitude MSL e havíamos decolado do Morro de Santo Antônio, vôo maldito, proibido, politicamente incorreto e antiecológico, de acordo com alguns.

Comigo voava Luis Fernando, piloto das antigas mandando bem em seu Sinergy 1.

Tomamos a decisão de pousar, apesar de sobrar combustível e, o mais importante, o dia apresentar intensa atividade térmica. O gradiente estava “até doce” como diria “Seo Juca”. Maldita decisão. Poderia ter faturado bons káemes naquele dia.

Havia atravessado o lamacento Cuiabá e voltava para a margem esquerda, com dificuldades para perder altura, verdadeira heresia, inda mais na baixada cuiabana, local de reconhecido gradiente desfavorável ao vôo livre. “Enganovers”, espirais leves e, obviamente, voar fora de térmicas, me permitiram descer para o pouso. Mirei o alvo: o campo de futebol da idílica Santo Antônio.

À esquerda, a torre de celular da operadora local e o campo verdinho, verdadeiro tapete, convidava-me a por os pés suavemente em cima dele após estolar a vela, virar de frente para o brinquedinho e fazê-lo abraçar suavemente a grama fresca.. Mais “enganovers” e curvas com o objetivo traçado. Mantinha a proa para o pouso. Algumas chacoalhadas, fruto da atividade termal, mas nada excepcional, que pudesse indicar o que viria a seguir.

E o que veio a seguir meninos e meninas, pegou-me completamente desprevenido: o telhado de tecido que protegia-me de todas as intempéries da natureza desabou. Do meio da vela para as pontas. Não chegou a ser um front animal. Levei bem maiores depois. Mas desestabilizou todo o conjunto pendular de minha aeronave e como resultado padrão de todo front, a seqüência de eventos redundou num pêndulo de dimensões consideráveis que contive com a atuação correta dos batoques, manobra para que aprendi no curso de simulação de incidentes de vôo, SIV. Bendito SIV: não fosse ele já teria me metido em grandes enrascadas. E bota grandes nisto.

Bem, além da vela, o evento também desmontou a estabilidade de minhas pernas, tornando-as bambas. Daí, o sonho de toda uma existência ruiu: não pousarei mais naquele campo de grama verde, com toda aquela petizada me cercando, os locais maravilhados com aquela geringonça que voa igual pipa no vento, pois, decididamente o campinho não era exatamente um maracanã. Teria que encaixar muito bem meu pouso dentro do campo. Algum erro e... cerca!

Dei meia volta. Olhei nos arredores e lá estava o terreno baldio buscado por todo voador que ao sair do morro consegue chegar na cidade.

Fiz a perna para o pouso, fazendo o cálculo para voar baixo lambendo algumas árvores típicas de nosso cerrado para, daí, pousar os pés naquele terreno. Praticamente no final da perna para pouso, num dos lados da rua estava a rede de 13.8kv, de alta tensão, comum nas nossas cidades. Tão comum que convive com a rede de 440v, de baixa tensão. Não queiramos ter um encontro com ela.  É o que poder-se-ia chamar de tórrida relação .

Enquanto percorria a trajetória da perna para alinhar-me com o pouso, verifiquei que o dia estava particularmente saboroso, brotando térmicas a baixa altura chacoalhando minha pequena e frágil aeronave. Maldita hora que tomei a decisão de pousar, mas, enfim, a decisão estava posta.

Muitos que ainda não perceberam ainda irão aprender que, em vôo, recebemos muitos avisos do que está para acontecer. Acho que é assim na vida onde somente os incautos são pegos desprevenidos.

Felizmente estava atento a estes avisos e inferi que ao chegar na rede de alta que estava no final da perna de aproximação de meu pouso, poderia receber uma “lufada” de vento que poderia me jogar em cima dos três fios da alta (um neutro e duas fases, creio eu).

Cônscio desta possibilidade, tomei a decisão de não ultrapassar demais os fios para colocar a proa para o terreno baldio.

Dito e feito!

Exatamente como previa, uma bolha de térmica forçou minha trajetória sabem para onde? Bem prá cima daqueles demoníacos fios de alta tensão. Virar churrasquinho eu? Nem a pau juvenal!

Como não havia passado dos limites, ou seja, não voava sobre os fios, ainda tinha tempo para agir. Não porém, sem algum trauma. Mas precisava agir!

E agi da  forma que reputo a única para a ocasião. Os fios estavam à minha direita, deveria ir para a esquerda. Então lá vai: uma atuação A-N-I-M-A-L no batoque esquerdo, negativando a vela. Estava mais ou menos na altura dos fios, porém, a negativa não redundou em queda livre. Desci forte, porém, não despenquei, caindo dentro de uma espécie de vala. Bem a minha frente um barranco no qual bati os dois pés com a vela caindo depois de mim, bem diferente do pouso almejado, ensaiado, teatralizado até, que imaginei naquele campinho sob os holofotes de Santo Antonio do Leverger.

Mas estava completamente a salvo da ameaça hertiziana da rede de alta tensão.

Por que estava a salvo? A resposta a esta questão é definitivamente a diferença entre a vida e a morte no vôo livre.

A eficiente instrução que recebi de nosso instrutor Fernandes e do suave SIVUCA, bem assim como a atenção que sempre dediquei ao contexto em todos os meus vôos, desenvolveram em mim uma boa capacidade de observação dos sinais que a natureza nos dá, permitindo-me antecipar os eventos.

Ao verificar a forte atividade térmica daquele dia, percebi (antecipei) a possibilidade de uma bolha me levar de forma irreversível para cima daqueles fios. Existindo esta possibilidade, não os cruzei completamente. Porém, minha capacidade de observação poderia ter aumentado ainda mais minha margem de segurança, fazendo-me retroceder mais longe ainda da rede. Como não o fiz, o resultado foi a negativa que me deixou longe do pouso, mas também longe do desastre.

Impressionante o vôo livre. Evidentemente quanto mais voamos, mais aprendemos. Esta aprendizagem, porém, parece que se transforma numa espécie de vidência onde cada evento permite o desdobramento do próximo em nossa mente: um chacoalhão na vela e não sei porque, sabemos que temos que girar para um ou outro sentido, centrando a térmica e ganhando altura; uma despressurizada aqui ou acolá e instintivamente sabemos qual batoque e com que força atuar para mantê-la aberta; intensa atividade térmica no dia e sabemos que provavelmente no pouso descolarão bolhas que nos dão um bom trabalho para chegar ao chão em segurança; fumaça muito inclinada no solo e sabemos que o vento está forte e que atrás dos obstáculos encontraremos rotores. Está tudo ao alcance do piloto, visível e invisível ao mesmo tempo.

Assim, esta vidência é, ao mesmo tempo, a sobrevivência do piloto e do seu vôo.

Sejamos então, pilotos videntes e não nos deixemos ser pegos de calças curtas pelas milhões de possibilidades que o vôo livre pode nos apresentar.

(Acho que esta é uma história de ficção e quaisquer coincidências com nomes, pessoas, eventos e lugares é mera semelhança. Pelo menos acho

Última Atualização ( 12 de fevereiro de 2008 )
URUBU BIRUTA
Autoria de Fernandes   
26 de outubro de 2007
La estava eu novamente num dos lugares que mais gosto de estar, no cume de uma montanha...sozinho...me preparando para decolar. Eram 13h:10min  e os alunos todos já haviam decolado: o Wagner pregou! Jamir, idem! O Cláudio fez um vôo legal, mas já tinha pousado também.
O piloto Ivo Borges tinha decolado depois do meio-dia... O cara pegou a primeira boa térmica que passou pela rampa e já estava depois de Santo Antonio, seguindo para Barão de Melgaço.
Disse a mim mesmo:
-  Já tá tarde pra caramba... Será que vai dar pra fazer alguma coisa? - Quem mandou ser instrutor??
- Vamos lá!!!
Logo entrou uma termicazinha e decolei.
Consegui bater 1700m de altitude e tirei rumo à praia grande. Peguei uma descendente enorme, perdi altura demais e resolvi voltar no rumo de Santo Antônio, porque facilita o resgate.
Quando já estava a menos de 1000m, achei uma termicazinha e fui derivando até próximo de Santo Antônio, sobre umas lagoas... Foi quando percebi que alguém me seguia...
Você sabe aquela sensação estranha que todos nós sentimos, né? Olhei pra trás e, imaginem: um lepa de um negão de penas enormes e asas ultra-longas que, bem de perto, me observava.
- HEY!!! QUALÉ, NEGÃO??? SAI FORA!!!
Ele nem aí...
Fiquei um pouco por ali sobre a cidade. Ganhava uma alturinha aqui, perdia ali; nada que realmente me levasse pra cima de verdade. E onde eu ia procurando as ascendentes o urubu ia atrás.  Resolvi inverter a situação e virei, pra ir atrás do urubu biruta (gostaram do nome do bicho?).  O mala olhou pra mim, soltou um grunhido ininteligível e, com uma habilidade invejável, se colocou novamente em minha retaguarda. Parece que dizia:
- Eu tô na sua cola, cumpade!
E o pior: se eu mandava pra onde ele estava só tinha descendente.
Pensei:
- Larga pra lá!! Vou la pra cima do cemitério; lá sempre tem um a termicazinha (lembre-se: ONDE BROTA UMA TÉRMICA UMA VEZ, PROVAVELMENTE VOCÊ VAI ENCONTRAR OUTRAS TÉRMICAS ALI VÁRIAS VEZES).
Mirei pra lá, acelerei tudo e de vez em quando olhava de rabo de olho  pra ver se o irmão negão estava me seguindo... E lá estava o cara!...
No cemitério, não achei grande coisa, mas deu pra subir um pouquinho e chegar a uma queimada logo depois da cidade... E o negão me acompanhando, sem um pingo de constrangimento. Olhei à esquerda da estrada que vai pra Barão e vi outra queimada... Gente, estão tocando fogo em tudo...
Mais próximo daquela queimada tinha uns urubus subindo (pelo menos aqueles não me estão usando como biruta). Acelerei tudo pra lá!!!
Vocês lembram daquele ser que me acompanhava?? Pois é... o cara continuava lá, mantendo uma certa distância. Acho que ele (ou ela) gostou de mim.
Antes que alguém me pergunte, eu informo: Eu tenho certeza que tomei banho ontem!

Última Atualização ( 26 de outubro de 2007 )
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